Segunda-feira, Novembro 01, 2010

Dois


De volta a julho de 2010, de volta ao último penúltimo dia juntos.

É noite, estou sentado olhando pela janela do ônibus voltando pra casa dela. Ela está do meu lado, as duas mãos segurando a minha. Faz muito frio em Porto Alegre, frio dentro e fora.

Em um namoro a distância, você tem vários últimos dias juntos. Vocês viajam, se encontram, passam todo aquele tempo juntos matando a saudade que tanto matava vocês quando estavam longe, então o último dia chega e você tem que ir embora, até o dia em que viajam para se encontrar mais uma vez e passam por tudo isso de novo. Mesmo que já tenha se tornado uma coisa comum ir e voltar toda vez, nunca dói menos, e esse doía particularmente mais, uma vez que era o último dos últimos dias juntos. E os dois sabiam disso.

Junho de 2010.

As coisas já começavam a desabar. A poucos dias da viagem, ela disse que não aguentava mais tudo aquilo, que precisava de alguém ali com ela naquela hora, coisa que eu não podia oferecer. Terminar era o melhor, mas nenhum dos dois conseguia. É mais forte quem aguenta tudo pelo que nós passávamos sem desistir ou é na verdade apenas mais fraco por não conseguir tomar a decisão que era melhor para os dois? Não dava pra desistir naquela hora, afinal as passagens já estavam compradas e a viagem seria dali a uma semana. Então decidimos que íamos existir por mais aqueles 20 dias, e ver como seria depois.

Colocamos esse prazo de validade no nosso namoro: 20 dias juntos, e depois disso ninguém mais sabe o que seria. 20 dias pra mostrar a ela que ainda valia a pena. 20 dias. Ela me queria mesmo na vida dela, e eu a queria na minha.

Fevereiro de 2010.

Estamos no meu quarto, na minha cama. É o segundo dia dela aqui, o nosso primeiro segundo dia juntos. Faz calor em Belém, como sempre. Ela pergunta se vamos nos ver de novo, porque no fundo ela acha que, quando esses 15 dias acabarem, nunca mais nos encontraríamos. Eu tiro o cordão de palheta que até então usava todos os dias quase que religiosamente e coloco ao redor do pescoço dela. "Toma. Essa é a garantia de que um dia eu vou voltar pra buscar e te ver de novo."

Julho de 2010.

Que a distância desgastava demais, os dois já sabiam; mas que a proximidade também desgastava tanto quanto, isso nós fomos descobrindo ao longo do mês. A excitação e paixão ficaram logo nos primeiros dias, e na segunda semana já vivíamos uma rotina de casados. Em um namoro normal, você vai tendo pequenas doses da pessoa, descobrindo ela pouco a pouco, o que faz com que você queira sempre mais e mais dela, até o dia em que decide que definitivamente a quer ela toda - todas as qualidades e todos os defeitos dela também. É como um laboratório, vocês vão experimentando um ao outro e vendo se a convivência é possível, e se amam tanto que vão se moldando e se encaixando. Em um namoro a distância, ou vocês estão longe demais ou perto demais, e acaba tendo que se acostumar à força. Ou não.

Nós nos desentendíamos, brigávamos, nos decepcionávamos e nos machucávamos. Chegávamos até a esquecer em alguns momentos que estar ali, na mesma casa, no mesmo quarto, dividindo o mesmo ar e experiências era justamente tudo o que os dois mais queriam na vida há alguns meses.

Julho de 2010, último último dia juntos.

Estamos no aeroporto, na fila de check-in, os dois se preparando pra despedida. Ela ainda usa meu cordão.

― Tá, olha, eu não sei quando a gente vai se ver de novo (na verdade eu nem sei se a gente vai), mas, até lá... eu vou precisar disso.
― O quê?

Aponto pro cordão. Ela entende, o tira e me devolve. ― Hm. Tá. Toma.

Coloco o cordão. Penso em devolver e pedir desculpa, mas eu fiz o que tinha prometido: ali estava eu e tinha voltado pra buscar, só que dessa vez eu já não podia prometer a mesma coisa que prometera em fevereiro. Acabou. I'm going back to 505.

Julho de 2010.

O dia de voltar ia chegando. Algumas vezes cheguei a considerar antecipar o momento, mas eu percebia que o melhor seria ver até onde iríamos. Claro que não foi de todo ruim: tivemos nossos momentos juntos. Nos divertíamos, ríamos, líamos e víamos filmes juntos. Quando chegava a hora de dormir e eu tinha que descer pro meu colchão no chão (uma vez que a cama era de solteiro e os dois se mexiam tanto que uma hora algum dos dois acabaria caindo no meio da noite), dávamos as mãos, e ficávamos assim até o sono vir. Saíamos pra conhecer os lugares, pra passear com o cachorro; quando não pedíamos pizza, fazíamos a comida, comíamos e lavávamos a louça depois. Conheci uma das cidades mais bonitas do país, o que começou a despertar de fato meu interesse pela arquitetura. Mas ainda fazia muito frio.

Julho de 2010, último penúltimo dia juntos.

Fui ao shopping sozinho pela manhã sacar dinheiro em uma daquelas máquinas do Banco24Horas. Coloquei meu cartão, digitei minha senha e, quando foi pra preencher a quantia que eu queria sacar, coloquei R$ 100. Sabia que não tinha R$ 100 na minha conta, mas só pra ver no que ia dar, apertei mesmo assim e o dinheiro saiu da máquina.

― Eita, caralho!

Voltei pra casa dela. Era o fim dos 20 dias (já havia desistido da minha meta inicial há alguns dias), o prazo acabara, e no fundo os dois sabiam que não dava pra estender muito tempo dali. No fundo, os dois sabiam que, depois do dia seguinte, cada um ia pro seu lado. Nenhum dos dois estava com muito ânimo pra fazer qualquer coisa, mas aquele era nosso último dia inteiro juntos, então fomos dar uma volta no shopping.

― Vem cá, preciso te mostrar uma coisa!

Levei-a até a máquina. Dessa vez apertei a quantia de R$ 50. Saíram R$ 50 da máquina.

― HAHA, TIRA MAIS! TIRA MAIS!

E eu fui tirando até onde deu.

Sacar dinheiro que ninguém sabe de onde veio daquela máquina foi divertido, o resto da noite também. Passeamos pelo shopping, fomos nas livrarias, nas lojas, na praça de alimentação. Durante aquele tempo, fomos ali várias vezes, mas aquela vez, aquela vez em especial, foi a que valeu mais a pena.

Na livraria ela estava distraída com algum livro. Corri pra achar o 1001 filmes para ver antes de morrer, peguei, paguei no caixa e fui pra área de embalar para presentes, sempre me esquivando de forma que ela não me visse. Das outras vezes que fomos àquela livraria, sentávamos em uma das poltronas, ela com o livro pesado sobre as coxas, abrindo em páginas aleatórias e anotando em um pedaço de papel os filmes que veríamos naquela noite e nos dias seguintes. Uma vez com ele embalado, voltei para encontrá-la e o entreguei a ela.

Na saída, minha mãe ligou. Perguntou se estava tudo bem, se o dia da viagem era amanhã mesmo, que horas deveriam estar no aeroporto pra me buscar, coisas de mãe. "Tá tudo bem, mãe, não se preocufhkgf hihi pára" "o quê??" "nada, mãe!". Ela ficava beijando meu pescoço pra me distrair. "Tenho que desliGAR HDKjdfhd até amanhã, mÃe, te amO DHKdd hih"

O shopping fecharia em alguns minutos, hora de voltar. Fomos para a parada, fizemos sinal para o ônibus e subimos. É noite, estou sentado olhando pela janela do ônibus voltando pra casa dela. O último último dia juntos foi o mais frio de Porto Alegre. Mais dentro do que fora.


Este post não é sobre amores, não é sobre namoros, nem términos, saudades ou recordações. Este post é porque só agora eu me dei conta de onde vieram os quase 300 contos negativos na minha conta bancária.

Ora, porra.
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