Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Zumbis no fêice


Olha aí, seus filhos da puta.

Dia desses, navegando pelos mais tenebrosos mares desta internet, me deparo com o seguinte na página inicial do Facebook:




Maneiro. Agora, vamos pensar um pouco?


Primeiro de tudo, logo de cara já ficamos sabendo da existência de um tal de ZUMBIS NO FACE. Não manjo muito das Facebookarias, sei da existência da página do Melhor do Melhor do Mundo (o que, aliás, só fiquei sabendo que existia graças à rede social - infelizmente) e do temido Humor no Face. Aliás, toda vez que o diminutivo de Facebook, fêice, é empregado em uma frase, você sabe que não vai prestar. Toda vez que você tá na aula de informática e seu coleguinha pede licença pra te mostrar uma coisa no fêice, toda vez que sua amiga diz pra você ir ver as fotos da festa (que ficaram ótimas) no fêice, toda vez que a sua tia pergunta se você já a aceitou no fêice, uma pessoa de bem nesse mundo morre.

Agora pense em quantos inocentes a sua mãe já matou.

Segundo, me aparecem com essa imagem que diz que já estamos cercados por "criaturas sub-humanas, sanguinárias, frias, sem compaixão e que fazem de tudo pra você ficar na mesma merda que ela" (sic). Ok. Logo em seguida, diz que só espera uma desculpa pra poder dar um tiro na cabeça de todo mundo. Ou seja, DE ALGUMA FORMA, CURIOSAMENTE, ansiar por "estourar a cabeça" das pessoas que te cercam faz de você MAIS HUMANO e até mesmo COMPASSIVO do que todos os outros, e nenhum pouco sanguinário e muito menos frio. Arrastar as pessoas para a merda? Poxa, que nada, você só quer dar um tiro na cabeça delas.

Mais de 700 pessoas e só eu vejo a ironia aí?

Terceiro, o sujeito que postou (provavelmente um jovem nerd, com uma tatuagem do Toad em alguma parte do corpo, que é como os nerds identificam uns aos outros hoje em dia) ainda acrescenta que espera que o apocalipse aconteça logo. Não me entendam mal, filmes de zumbis são um dos meus gêneros favoritos - aliás, todos os filmes B e trash em geral. Acompanho The Walking Dead e li o gibi desde a época que começou até chegar na fase atual e ficar chato. O problema é todo esse hype que a geração bazinga começou a criar ao redor dos mortos-vivos: as pessoas não apenas gostam de filmes de zumbis, elas querem VIVER em um (ou pelo menos é o que gostam de dizer que querem porque devem achar muito cool). Nesse aspecto, essa galera parece mais os crentes que mal podem esperar pra que Jesus chegue logo, para levar para o Céu as pessoas que merecem (coincidentemente, os próprios crentes) e dizimar com seus olhos laser os pecadores ou qualquer um que discorde deles. Sim, eles devem achar que "Apocalipse" significa "diversão" em grego.

Vou contar uma pequena história pra vocês.


Calma, Sarinha, que essa é pequena mesmo.

Jonas era um jovem muito inteligente e antenado, passava os dias trancado no quarto baixando séries e compartilhando imagens engraçadinhas para seus amigos no Facebook. Também era um cidadão consciente e exemplar: usava imagem do V no avatar para protestar contra o SOPA e compartilhava imagens de pessoas maltratando gatinhos sempre que estas apareciam na sua página inicial. Curiosamente, até hoje ainda não tinha tirado seu título de eleitor ou a 2ª via da carteira de identidade que perdera já fazia dois anos, mas... bom, isso não vem ao caso.

Certo dia, Jonas acordou e olhou no relógio do celular: 15h. Até que era cedo, para seus padrões nas férias. Levantou-se da cama, foi até a janela e abriu a cortina para tomar a única dose de vitamina D que tomava durante todo o dia, quando olhou para baixo e... ZUMBIS. ZUMBIS POR TODO OS LADOS.

Qualquer outra pessoa teria entrado em pânico na hora, se jogado no chão e abraçado as próprias pernas enquanto balança para frente e para trás, mas não Jonas. Não, senhor. Ele mal podia acreditar no que seus olhos viam, porque aquele era o dia que esperava há tanto tempo. Aquele era o dia em que o Apocalipse Zumbi que há tanto esperava estava finalmente acontecendo!

Anos de preparação vendo filmes (começou a acompanhar The Walking Dead ano passado) e jogando jogos (zerou Resident Evil 4, quatro vezes) de zumbis finalmente valeriam para algo. Não pode se conter de tanta excitação que disse:

- HAUEHUAEHUEAH O APOCALIPSE ZUMBI

Também pensou que se sua cara naquele momento fosse um meme, com certeza seria

Mas tinha que sair logo de lá, se quisesse sobreviver. Procurar por um lugar seguro. Um veículo. Combustível, comida, água e, mais importante de tudo, uma arma.

Oh, bem, onde conseguiria uma arma?

Ah, sim, tem a do papai.

(Isso é, se Jonas descobrir onde ele a esconde)

Jonas saiu do quarto para o corredor procurando o pai, achando aquele climão de survivor horror maneiro pra caralho. Quando chegou na sala e encontrou seu pai ajoelhado curvado sobre a irmãzinha, jogada no tapete da sala, mutilada e desmembrada, Jonas já não achou tão maneiro assim (nem sua bexiga, que rapidamente esvaziou todo seu conteúdo). Quando o pai levantou a cabeça e o viu, ainda mastigando um longo intestino e com metade do rosto estourado devido a alguma pancada muito forte, Jonas achou menos maneiro ainda.

Quando sua mãe surgiu por trás dele e deu uma mordiscada no seu pescoço, arrancando numa só dentada a jugular e, em mais outra, o esôfago, aí que Jonas não achou maneiro mesmo.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, um cara que nunca tinha visto sequer um filme de zumbi na vida (e muito menos desejado tudo aquilo, pois sua família e todos seus amigos, até onde sabia, estavam mortos) pois sempre estava muito ocupado malhando e indo a baladinhas e sendo descolado, abria caminho por entre os mortos-vivos, matando qualquer um que encontrasse pela frente. Mais tarde naquele dia, encontrou uma outra sobrevivente bem gatinha pela qual Jonas era apaixonado, e ambos fizeram sexo em um supermercado abandonado.

Duas vezes.

Moral da história: UM APOCALIPSE ZUMBI REAL NÃO SERIA DIVERTIDO.

Parem de ficar "ui ui ui zumbis tomara que aconteça logo haheuhaueu" que vocês já matam aula de Educação Física no colégio porque não aguentam 15 minutos correndo, imagina o resto da vida.

E PAREM DE COLOCAR ESSA MERDA NA MINHA PÁGINA INICIAL DO FACEBOOK, PORRA

PORRA

PORRA (╯°□°)╯︵ ┻━┻

Uma pequena intimação


Vocês já devem ter reparado que faz um tempo que não posto aqui. Bom... bem mais tempo do que o de costume. O motivo é esse aqui:






Que conste nos autos que este blog não verá post novo enquanto a sra. Sara Carmo Guedes, hipster anarquista...

Nota do Erick Esqueceu de dizer que ela é crente.

... CRENTE famosa por vários atos de terrorismo tanto nos comentários quanto no próprio KD, não terminar de ler o post anterior até o fim.

Tenham um bom dia.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Eu e o nariz


Estava no meu quarto praticando um dos meus passatempos favoritos: jogado na cama, braços pra trás da cabeça servindo de travesseiro, encarando o teto enquanto esperava a vida passar por mim da forma menos dolorosa possível. Antigamente, ao fazer isso, eu ficava me culpando pensando "puxa, eu poderia estar fazendo algo de útil." O problema é que a coisa de mais útil que eu sabia fazer era sanduíches, e a essa altura eu já tinha comido três e a Coca já havia acabado.

Mas bem, eu estou perdendo o ponto.

Estava no meu quarto, jogado na cama, encarando o teto, o que é bem legal de se fazer quando ele não encara você de volta, porque, afinal, isso seria estranho.

Bom, meu teto ESTAVA me encarando.

E, é, foi estranho.

A cara do meu teto tinha um nariz grande, o que em si já é bem incômodo, afinal não é o tipo de coisa que você espera em um teto. Em um teto você espera uma lâmpada, de preferência uma fluorescente, afinal consome menos e dura mais do que uma incandescente. Tudo bem que o preço pode até não ser tão atrativo, tem lâmpadas fluorescentes que podem chegar a custar oito vezes mais que uma incandescente. Você pode até dizer "o custo pode ser maior, mas se dura mais e consome menos, o benefício também é maior", mas você deve ter em mente que, em um ambiente onde você apaga e acende a lâmpada muitas vezes, a fluorescente não dura tanto tempo assim. A lâmpada do meu quarto é uma fluorescente, fica pendurada bem no meio do ventilador de teto - AH, outra coisa que você espera encontrar no teto de uma casa. O problema é que tanto a lâmpada quando o ventilador tinham sumido. Agora, só havia aquele enorme e bizarro nariz saindo do meio do meu teto.

Vocês já podem imaginar que, à essa altura, eu já estava um tanto preocupado - até chateado, eu diria, afinal era um dia particularmente quente.

Ok, minto.

Imagine você na minha situação, com um nariz de 2 metros acima da sua cabeça apontando pra você. Você não ficaria "um tanto preocupado", você não ficaria "chateado", e com certeza absoluta a coisa que menos preocuparia você naquele momento seria o ventilador que sumiu.

Eu queria gritar de um jeito que até as pessoas surdas de alguma pequena cidade do interior da China entendessem que havia um nariz bem no meio do meu forro. Eu queria chorar pois achava que o fim do mundo estava finalmente acontecendo. Eu queria que a minha sanidade tivesse o mínimo de consideração comigo e não me abandonasse justo naquela hora, porque o meu coração já tinha sido um filho da puta e escalado minha garganta, pronto pra dar no pé pela minha boca.

Nesses momentos, você procura agarrar com todas as forças o mínimo de calma que ainda possui - mesmo que tenha que revirar a sua alma atrás dela. Lembrei de tudo que já havia lido sobre meditação, situações de extremo perigo e afins, fechei os olhos e contei até três. Afinal, era tudo minha imaginação, então quando abrisse os olhos, ele não estaria mais lá.

Abri os olhos, e ele ainda continuava lá.

Encarei ele pelo que pareceram horas. A minha coordenação motora já tinha abandonado meu corpo há algum tempo, provavelmente agora estava tirando férias em alguma ilha do Pacífico, então eu me encontrava completamente imobilizado na cama. Nesse tempo, meu cérebro tentava encarar da melhor forma possível aquela situação e assimilar o fato de que havia uma estrutura nasal completa formada bem ali em cima de mim. Algumas vezes, ele considerou seriamente pedir demissão e passar o comando para o meu coração, que já andava de olho naquele cargo há algum tempo, mas este já estava tendo problemas suficientes se concentrando em continuar batendo; ou quem sabe pro meu estômago, mas ele já havia dado quatro nós em si mesmo e se escondido entre os pulmões, então estava exatamente em condições de assumir qualquer tipo de liderança.

Sentei na cama. Encostei os pés no chão. Um após o outro, fui seguindo meu caminho até as escadas. Desci as escadas. Abri a geladeira, peguei um copo d'água. Voltei para o quarto. Bebi a água, deixei o copo em cima do criado mudo e voltei a deitar, dessa vez virado para o lado pra não ter que encarar o nariz a noite inteira. Eu tinha tomado uma decisão: vou ignorar esse nariz.

Até este ponto no texto, ainda não descrevi o nariz. Bom, permitam-me: primeiro de tudo, era grande. Realmente grande. Tinha uma curvatura, meio torto, parecendo aqueles narizes de lordes ingleses narigudos. Sim, era definitivamente masculino (ah, que sorte a minha! Um nariz no meu teto e tinha que ser justo de um homem!). Além disso, era branco, meio rosado na ponta. As narinas eram redondas, dilatando e contraindo conforme o nariz respirava. Sim, ele respirava. Não sei se havia de fato um sistema respiratório completo, e, meu Deus, se houvesse eu não queria nem saber onde estaria o pulmão. Só sei que ele respirava do jeito que você esperaria que qualquer outro nariz perfeitamente sadio - e no rosto de alguém - respirasse. Quando inspirava, podia ouvir um leve silvo, diria até que típico de narizes de 2 metros de comprimento. Dependendo da posição, você também poderia ver os cabelos de nariz mexendo conforme a direção do ar. Sim, era um nariz perfeitamente normal, não fosse o fato de não possuir um corpo que o acompanhasse.

Algum tipo de fungo, talvez? Só Deus sabe.

Os raios de sol que sempre entravam pela abertura em minha janela para me encontrar ferrado no sono devem ter tido uma surpresa ao encontrar um Lucas que acabara de virar a noite virando de um lado para o outro na cama. Tentei dormir de todas as posições e lados, contei todas as ovelhas que haviam em minha fazenda imaginária até sobrarem apenas vaquinhas, então eu contei as vaquinhas também. E quando as vaquinhas acabaram, contei os hipogrifos. Você deve se perguntar o que hipogrifos estariam fazendo em uma fazenda, mas acho que isso é o de menos em uma situação dessas, certo?

Minha mãe bate na porta. Levanto da cama e vou até a porta. Entreabro ela e observo minha mãezinha com a roupa de corrida pela abertura.

– Olá, mamãe. O que há?
– Deixei meu celular em teu quarto?
– Não, mamãe.
– Deixa de ser preguiçoso, você nem procurou. Deixa-me entrar.
– Não, mamãe, estou sem roupas.
– Daqui eu posso ver que estás de pijama.
– Ah, e não é que é mesmo? É que este é um pijama tão leve e confortável que me deste que às vezes acabo esquecendo que estou a usar roupas e...
– Deixa-me entrar – ela repete, forçando a porta.

Entro em pânico um pouquinho. Por mais que eu estivesse decidido a ignorar o nariz, duvido que minha mãe partilhasse desta decisão. Oh, minha pobre mãezinha, teria um treco ao olhar pra cima e ver um nariz bem no meio do leito do seu único filho.

Então a coisa mais surpreendente aconteceu: ao entrar no meu quarto, a primeira coisa que ela viu não foi a aberração a apenas alguns metros de sua cabeça, mas sim o celular dela jogado em cima da minha escrivaninha, em meio a um monte de tralhas.

– Como és preguiçoso. Não disse que estava aqui?
– Ah, me desculpa, juro que não tinha visto, mamãe. Deve ser olho materno. Sabes a senhora que eu não encontraria um elefante se a senhora o colocasse atrás da caixa de leite.
– Isso se chama preguiça. Bom, estou indo correr. Beijo.
– Beijo, mamãe.

E saiu.

Eu continuei no quarto. Eu e o nariz.

Então ele deu uma fungadinha. Fung.

Os primeiros dias foram particularmente traumatizantes. Não bastasse as noites em claro, as manhãs eram piores ainda: o nariz fungava e se contorcia quando a temperatura baixava. Várias vezes eu tentei ler um livro ou gibi, mas era impossível, pois toda vez que ele fungava eu perdia completamente a concentração, quando não a paciência. Às vezes, quando aquela chuvinha de fim de tarde caía, eu me deitava na cama e me preparava para cochilar, apenas para ser acordado de solavanco pois o nariz decidiu recomeçar o funga-funga. Fung, fung, era o som.

Além disso, eu tinha vergonha do nariz. Eu pensava "se existe um nariz no teto, deve existir um olho em algum lugar." Então não conseguia de jeito nenhum trocar de roupa no meu próprio quarto. Logo eu, que gozava tanto de minha privacidade, me vi obrigado a tomar banho de sunga em minha própria casa. Sempre tive vergonha do meu corpo, então o que menos queria era um olho sem um observando minhas partes.

Aparentemente, ninguém mais via o nariz. As pessoas entravam no meu quarto, e todas lidavam com aquela situação ainda melhor do que eu. Minha mãe, meu padrasto, meus amigos. Aquele nariz enorme bem ali em cima simplesmente parecia não incomodar ninguém! Mesmo quando o nariz fungava, absolutamente ninguém dizia nada a respeito pois ninguém parecia ouvir. Pouco a pouco, fui começando a aceitar o fato de que eu estivesse, de fato, louco. Então eu não podia falar pra ninguém. Não podia contar pros meus amigos, não podia contar pro meu padrasto, não podia ligar pra polícia muito menos pra um mecânico. Às vezes eu me divertia sozinho imaginando as situações. "Alô, seu mecânico? Estou tendo um probleminha nasal aqui em casa. É, isso mesmo. Bom, é que tem um nariz brotando bem no meio do meu forro. Às vezes ele escorre, mas não é água, é muco mesmo. Será problema dos canos? Alô? Seu mecânico? Alô?"

Se falasse pra minha mãe, ela com certeza acharia que é algum tipo de brincadeira. Se eu insistisse, acharia que eu sou algum tipo de viciado em drogas e me daria uma surra que eu nunca mais esqueceria. Meu padrasto, então, poderia até me levar para o psiquiatra, apenas pra ter a chance de conseguir que eu fosse internado e assim, enfim, se livrasse de mim (e, consequentemente, meus custos). Meus amigos só reforçariam ainda mais a imagem que têm de mim de mentiroso. No final de todos dias, na escuridão do quarto, deitado na cama olhando pro teto, mais do que nunca, eu estava sozinho. Só eu via aquilo. Só eu ouvia aquilo. Era só eu. Eu e o nariz.

As semanas foram passando, e eu fui começando a me acostumar com ele. Meu quarto estava mais escuro e mais quente, mas por sorte eu tinha um ventilador comum e uma lâmpada que roubei da sala pra me fornecer luz à noite. Ignorar o nariz estava realmente fazendo efeito: eu ficava na minha, ele ficava na dele, e assim um não cruzava o caminho do outro. Eu aqui, ele lá em cima. E assim estávamos OK. O problema é que começamos a entrar na época das chuvas. Logo, houve o já esperado surto de gripe. Foi aí então que tudo desandou de vez.

Chovia, eu estava jogando videogame, sentado em minha cadeira logo abaixo dele, quando aconteceu. Não encontro onomatopéias que descrevam satisfatoriamente o som horrível que me fez saltar da cadeira, puxar o controle com força e, consequentemente, o videogame (pois o meu é um PlayStation 2, daqueles slim, então o controle ainda é ligado ao console por um fio), mas "POWWW" é o som do videogame indo de encontro ao chão, e "ARRGHHH" é o som que eu fiz quando minha roupa ficou toda encharcada.

O nariz ficou gripado.

Fiquei puto. Não "um tanto preocupado", não "chateado", e com certeza absoluta a coisa que menos me preocupava naquele momento era o videogame. Aquele nariz, aquele maldito nariz que acaba com a harmonia e decoração do meu quarto, que todos os dias eu acordo com os olhos fixos nele e tendo que fingir que não existe, que há alguns meses entrou na minha vida e no meu quarto da forma mais absurda e estúpida possível tinha acabado de ESPIRRAR em mim. Aquele nariz grande e feio e... inglês. Não sabia se ele tinha alguma genitora, e muito menos ainda gostaria de saber, mas no momento tudo o que eu conseguia pensar era: filho de uma puta.

Saí do quarto, fui direto para a parte de trás da casa, numa área no quintal que serve meio que como depósito. Estava puto, sangue fervia por todo meu corpo. Meu cérebro já havia oficialmente apresentado sua carta de demissão e passado o comando para o meu pâncreas, que é um órgão particularmente pavio curto (eu acho). Toda a raiva que tão insistentemente havia escondido durante todo aquele tempo, todo aquele ódio por aquela situação bizarra estar acontecendo, de todas as outras pessoas do mundo, justo comigo, toda a minha revolta parecia finalmente ter aflorado e tomado o controle do meu corpo. Eu já não era mais eu. Eu era puro ódio.

– O almoço já está pronto, Lucas.
– Oba, e o que vem a ser?
– Bife. Come agora enquanto ainda está quente, pois acabei de fazer. O arroz está na geladeira, na segunda prateleira. Te serve no teu prato e põe para esquentar no microondas.
– Que delícia, eu adoro o bife que a senhora faz, mamãe. E refrigerante, temos?
– Não, teu padrasto está a fazer as compras da semana neste momento.
– Poxa.
– Mas tem suco de garrafa, creio que que sobrou um bocadinho. Te serve lá.
– OK, mamãe.

Me servi, muito puto. Almocei, mais puto ainda. Coloquei minha louça na pia... meio puto só.

– Engraçadinho, lava tua louça que não tens empregada.

Lavei a louça, puto pra caralho.

Tendo terminado o almoço, segui meu caminho para o quintal. Encontrei o que procurava: a escada. Agarrei com as duas mãos, e fui levando de volta para o quarto. Ao passar pela cozinha, abri a gaveta sob a pia, a primeira. Ali ficava a louça. Peguei uma faca e segurei firme pelo cabo, então mudei de ideia e a devolvi. Abri a segunda gaveta, era onde ficavam as facas grandes. Peguei a maior delas e a que melhor expressasse "olha, cara, eu não estou pra brincadeira", pois eu realmente não estava. Subi as escadas com a faca no cós das calças e a escada nas mãos e voltei para o quarto. Posicionei-a bem abaixo do nariz (na verdade, mais para a direção das narinas). Subi os degraus e cheguei no topo dela.

E lá estava eu. De repente, um misto de ansiedade e nervosismo bateu como um vento frio dentro do meu corpo. Me toquei que, durante todo aquele tempo em que ele havia surgido no meu quarto, eu nunca o havia tocado. Na verdade, eu nunca havia estado tão perto do nariz o quanto estava agora. Meu plano era bem simples: eu esticaria o braço. Se minha mão parasse pelo caminho, então o nariz era real e eu o estaria tocando. Se não, se minha mão transpassasse ou o nariz sumisse, eu saberia que aquele tempo todo era apenas alguma obra doentia da minha mente distorcida. Então eu estiquei o braço. Estiquei e... a mão parou. Eu toquei o nariz. O nariz era real. Eu o sentia. Estava com a mão nele. Eu e o nariz.

O ar que o nariz expirava e inspirava mexia meus cabelos. Eles iam pra frente e pra trás. Eu não poderia estar imaginando aquilo. Também não podia mais ignorar aquilo. Todo aquele tempo eu virava para o outro lado, esperando que um dia, quando olhasse de novo, ele já não estivesse mais lá, e tudo fosse apenas mais um caso divertido e sem explicação da vida. Não era só um jeito de tentar enganar a si mesmo, mas um mecanismo pra salvar a minha sanidade. Quem sabe um dia escrever um conto sobre isso. Mas lá estava eu, tocando nele, era REAL. Não podia mais ignorar aquilo, era um problema, e era real.

Tirei a faca do cós da calça. A ponta tremia e reluzia enquanto a erguia sobre a minha cabeça com as duas mãos. Gotas de suor brotam da minha testa e logo são jogadas longe pelo ar que sopra violento do nariz. Dentro das narinas vejo os pêlos, e nada mais, a escuridão lá dentro parece não ter mais fim. Eu tinha que arrancar aquela coisa dali, não poderia viver com um nariz no meu teto a vida inteira. Não era normal. Quantas pessoas você conhece vivem com um nariz sobre a cabeça? Você já ouviu falar de pessoas que vivem com o nariz onde não são chamadas, mas não é tão literal quanto a situação que eu estava vivendo. Ou então pessoas sem nariz, o que... é bem mais triste. Pessoas que perderam partes do rosto em acidentes, ou até mesmo na guerra. Têm de fazer enxertos de pele, passar por dezenas de cirurgias. Sem falar na auto-estima da pessoa, que é arruinada. Lembro de quando eu era criança e minha tia Adriana fazia aquela brincadeira idiota de fingir que tirava meu nariz... aquilo me assustava de verdade. Não sei se conseguiria viver sem o nariz. Mas sei que não consigo viver com um nariz extra - e que nem meu é.

Mas bem, olha eu perdendo o ponto de novo.

Estou com a faca erguida sobre a minha cabeça, pronto pra desferir o golpe. Estou nervoso, minhas pernas também treme, a escada treme junto. Ergo mais alto ainda a faca, para então descê-la com maior impulso...

Golpeio o nariz.

Algo aconteceu. Foi como bater com a faca em um bloco de chumbo - pelo menos o som foi idêntico. Mas não apenas isso, eu voei. Sim, eu voei, meus amigos, mas não literalmente, infelizmente, pois seria muito legal. Fui jogado para trás com uma violência absurda. Caí no chão sobre as minhas costas, bati a cabeça feio contra a parede. Meu corpo foi para um lado, a faca para outro, a escada não soube se decidir por qual dos dois ir atrás então só caiu de lado mesmo.

Então, logo abaixo do nariz, uma boca começou a se formar. Depois, dois olhos. Já ouviram a expressão "olhos sem vida"? Não era esse o caso, esses aqui tinham até demais. Ambos me encarando.

Fiquei aterrorizado. Meu corpo queria ir para a direita, mas minha alma pra esquerda. Queria gritar, mas já não tinha voz. Fui tomado por um medo absoluto, como se cada célula do meu corpo gritasse em agonia.

Então, a Boca falou.

– não.

Uma voz grave, como se mil trovões se juntassem com mil vulcões entrando em erupção pra montar uma banda cover de Rammstein. Era como se gritasse ao mesmo tempo que falasse com uma calma absoluta.

Lutando contra cada um dos meus instintos, cujo melhor plano era fechar os olhos, se jogar pro lado e fingir de morto até aquele rosto ir embora, consegui falar.

– O q-quê?!
– não. não faça isso de novo.
– Q-quem é você?!
– eu sou Deus.
– Deus?! O que... você... o Senhor... está a fazer em meu teto?!
– dando uma volta, de bobeira. aparentemente eu não sou bem-vindo aqui mesmo, então vou embora.
– Eu... eu... o quê?!
– adeus.

E entrou pra dentro do teto, sumindo.

Depois disso, tudo o que lembro é de ter desmaiado. Ok, não lembro exatamente de desmaiar, porque você não lembra de desmaiar, você só... desmaia. Fecha o olho e abre em seguida e descobre que se passaram horas entre uma ação e outra. Quando você vê, já é noite, você está jogado no chão com uma faca e uma escada, olhando pra sua lâmpada balançando no teto conforme as hélices do seu ventilador giram.

Sorri.

Funguei.

Tentei me levantar do chão, mas não consegui.

Funguei de novo.

Estou colado ao chão. Não há mais nada que eu possa fazer. Aqui termina a minha história. Minha e do nariz. Eu e o nariz.

Eu sou um nariz.

Fung.

Terça-feira, Novembro 15, 2011

Como ser um nerd


A história da humanidade pode ser resumida assim: primeiro, tem esse grupinho que é muito legal e faz coisas muito legais, e quase ninguém o conhece (por isso ele é tão legal). Só que esse grupinho é tão muito legal que as pessoas ao redor começam a notar, e logo querem fazer parte também porque também querem fazer as coisas muito legais pra serem tão muito legais quanto. Aí todo mundo começa a dizer que faz parte do grupinho legal, mesmo que não faça, e logo TODA A HUMANIDADE é "muito legal" e faz coisas "muito legais".

O grupinho muito legal original então fica de saco cheio de todos aqueles posers e vão procurar outra coisa pra fazer. "Era muito mais legal ser muito legal quando não era tão legal", dirão os saudosistas com lágrimas nos olhos.

Perguntem aos primeiros Australopithecus como eles se sentiram quando todo mundo passou a andar ereto e se achar super cool por isso.


Dia desses eu estava em meu computador, sufando na Internet, quando no espaço eu entrei dei de cara com o VLOG DA GAROTA MAIS NERD DO MUNDO!!!!!!!!!!11


Vocês lembram de quando achávamos que nerd eram os gordinhos de óculos que jogavam RPG, videogames e tinham a cara enfiada todos os dias na privada nos tempos de escola? Bom, estávamos errados. Hoje em dia, a palavra nerd deixou de significar isso:


olá amigos do fórum

Pra significar ISSO:


Daniel Barradas, ícone máximo da nerditude brasileira.

Mas, EI, isso é bom. Afinal, se antes pra você ser nerd era necessário alguns quilos a mais e sérios problemas dermatológicos e sociais, agora basta escrever na bio do Twitter que é nerd e, TCHARAM, você é um. Isso mesmo, agora até VOCÊ pode ser um nerd, meu chapa. Não era o que você sempre quis? E por isso mesmo o KD revoluciona a internet mais uma vez e, após o aclamado e vencedor do Prêmio Bonela da Paz Como ser um Colírio Capricho, traz a você um imperdível guia de COMO SER UM NERD. Afinal, o nerd de hoje é o rico de amanhã risos bazinga

Mas, primeiro de tudo, o que é um nerd?


Como a Nina Nerd (que é TÃO nerd que traz a palavra até no nome, aparentemente) bem disse, ser nerd está na moda. Devemos isso à explosão de filmes de super-heróis nos últimos anos e ao advento de séries como The Big Bang Theory que, para quem passou os últimos anos costurado pela boca ao ânus de outra pessoa e por isso tinha outras coisas mais importantes com que se preocupar do que as últimas tendências do mUnDo NeRd, conta as desventuras de 4 nerdassos vivendo altas aventuras super-engraçadas e dizendo "bazinga". Além disso, temos a popularização da internet e os avanços da tecnologia, que todos os dias colocam um gadget novo nas prateleiras da lojas e no Twitpic do Kid.

Tudo isso fez com que os nerds ganhassem o centro das atenções de todo mundo, afinal, quem mais entendia do assunto senão a galera que passava as noites trancada em casa desmontando o PC? Isso fez com que algo engraçado acontecesse. As pessoas deixaram de simplesmente ser nerds e passaram a QUERER ser nerds. Pois é.

Agora que você já sabe o que é um nerd, vamos ao que interessa: do que você precisa pra ser um nerd?

1. Camisetas nerds

O que vocês precisam aprender antes de tudo é, que quando se é um nerd, quanto mais você diz que é um nerd, mais nerd você é. Afinal, você bem conhece a frase: "uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade" (e se não conhece é porque você não é nerd!!!!). A cada mil vezes que você diz que é um nerd, você sobe mais um pouquinho na meritocracia nerd. Da mesma forma, quanto mais tempo você passa sem afirmar que é, VOCÊ VAI DEIXANDO DE SER. Por isso é tão importante utilizar cada oportunidade que tiver pra anunciar ao mundo que você é nerd - e, quem sabe, um dia você chegará ao nível do Daniel Barradas.

(O que é obviamente uma mentira, afinal ninguém pode chegar no nível do Daniel Barradas. Mas EI, não custa tentar, certo?)

Então primeiro de tudo temos que cuidar do seu visual. Afinal, as pessoas precisam só de OLHAR pra você já pensar "WHOOOOA esse cara é muito nerd!". Camisa com caneta BIC no bolso é tãaao anos 80. Não é porque você é nerd que tem que se vestir mal, certo? Então abuse das camisetas com piadinhas nerds, principalmente aquelas com referências a Star Wars ou Star Trek, ou então apenas com um "#BAZINGA" ou "Nerd Power" escrito em letras garrafais na frente. O negócio é mesmo usar camiseta de piadinhas babacas nerds e reclamar de quem usa camiseta do Pânico na TV.

E se você é uma garota, é OBRIGATÓRIO ter pelo menos uma camisa de estampa "I <3 NERDS". Afinal, se você for uma she-nerd super gostosa, é CLARO que tudo o que você quer em um homem é alguém que passe as madrugadas trocando itens do Ragnarok por fotos de meninas mostrando os peitos na webcam.


Poucas pessoas sabem (ou acreditam) mas esta foi a terceira esposa do Paulo Pokémon.


2. Óculos

Indispensável também no visual nerd são, claro, os óculos. Em tempos remotos, nerds usavam óculos devido às noites que passavam com a cara enfiada nos livros forçando a vista, então os óculos ficaram no imaginário popular como marca registrada do grupo, sendo usados hoje apenas para maior facilidade de identificação. Portanto, quanto maior a armação, melhor. Não precisa nem de lente, afinal, hoje em dia você não precisa nem saber ler pra ser um nerd.

Vejam por exemplo o exemplo desta she-nerd emanando nerdicidade:


Você deve ter pensado "MAS ELA SÓ TÁ USANDO ÓCULOS". Se você pensa isso, você é claramente um babaca não-nerd e deveria parar de ler este post aqui.

3. Tatuagens

Como já foi dito, negócio é mostrar que você é nerd. E quer forma melhor de dizer isso do que tatuar na própria carne?

Confiram agora algumas dicas de tatuagens clássicas para nerds:

- Super Mario/Pacman/Space Invaders
Se você já jogou algum desses TRÊS jogos alguma vez na vida em algum momento na vida, você ganha automaticamente o direito de se proclamar não apenas nerd, mas também GEEK e GAMER, além de poder tatuar um Toad ou um PacMan ou uma nave de Space Invaders em qualquer parte do corpo à sua escolha (lugar recomendado: no CU).

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Essa aqui então é clássica. Você sabe de onde é? E NEM PRECISA. Só... tatue. E pra quem perguntar, você só diz que tem algo a ver com o sentido da vida. Ninguém precisa saber mais, e você ainda corre o risco de parecer profundo.


- Darth Vader/Símbolo da Aliança Rebelde ou Império Galáctico
Se ser nerd fosse uma religião, Star Wars seria a Bíblia dela. Aliás, do que eu tô falando? Ser nerd É uma religião, e uma tatuagem de Darth Vader é o equivalente a uma de um Jesus Cristo boladão.


4. Videogame

Uma das áreas de conhecimento obrigatório de qualquer nerd são videogames. Você deve estar pensando "ah, então todo nerd joga videogame?"

ERRADO. Todo mundo que joga videogame é nerd. Dã.

Mas de que adianta você saber de uma coisa sem que as pessoas saibam que você sabe? Nada, eu lhes digo. Então é obrigatório para todo nerd ter pelo menos uma foto sentado no sofá jogando videogame pra mostrar pra todo mundo que você é o maior gameiro. E o mais bonito de tudo é que VOCÊ NEM PRECISA TER REALMENTE UM VIDEOGAME, basta comprar um joystick pra Play2 desses de R$ 9 nas Lojas Americanas, esticar pelo chão e fazer um set completo pro seu Twitpic fazendo o que você realmente gosta.


Claro que, eventualmente, as pessoas vão acabar perguntando pra você quais seus jogos favoritos. Esteja preparado e responda qualquer um dos seguintes jogos (ou todos, se você quiser realmente impressionar): Pokémon, Zelda, Mortal Kombat e Super Mario. SEMPRE Super Mario.

5. Uma boa descrição

E agora que você já está devidamente caracterizado como nerd, você tem que anunciar ao mundo que é um (caso contrário, como já disse, você vai deixar cada vez mais de ser nerd até colapsar, virar um buraco negro e sugar o planeta inteiro pra dentro de você). E a melhor forma de fazer isso é através das descrições nas redes sociais.

Existem vários modelos de descrições que você pode pegar e usar no seu Twitter, Tumblr ou canal do Youtube. Importante comentar que o nerd e o hipster muitas vezes se confundem, mas os dois são muito cool e estão na moda, então está mais do que permitido ser ambos.

Você pode fazer algo simples, como uma citação de seu autor supostamente favorito, porque isso é bem cool e nerd também:
To die by your side, such a heavenly way to die. (Caio Fernando Abreu)
As gatas se amarram robô gigante.

Você também pode falar dos seus gostos, já que eles definem quem você é:
Livros. Games. Cinema. Café. Fight Club.
Simples, direto, misterioso. Você lista apenas os seus gostos e fica um ar meio cult, meio blasé, meio pau no cu.

Ou ainda você pode usar o mesmo modelo, mas enumerando suas características:
Nerd. Eclético. Inteligente. Sarcástico. Bipolar.
Mais íntimo, provoca uma maior proximidade entre você e o leitor. O "bipolar" é um toque de mestre, confere um caráter mais humano à você, afinal é extremamente cool anunciar pra todo mundo que você tem algum tipo de transtorno psiquiátrico e pode a qualquer momento pular sobre a pessoa e enfiar um garfo na jugular dela enquanto mastiga a traquéia - o que não só é nerd e cool, como kinda sexy também.


Eeee pronto. Você é um nerd completo! Vê, não é tão difícil. Qualquer um pode ser nerd. Se você preferir, também há a opção de ser um nerd sociável, o chamado nerd progressista. Surpreender faz parte do negócio.


BAZINGA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Quinta-feira, Setembro 22, 2011

McMico Feliz


Cara, tava lembrando hoje de uma época da minha vida em que morei nessa casa que ficava a apenas alguns metros de um McDonald's. Tinha 12 anos na época, e todo mísero trocado que ganhava tinha apenas dois destinos: sanduiches e gibis. Não que tenha mudado muita coisa hoje em dia, aliás. Mas ainda nessa época, o McDonald's ainda fazia o seu melhor hambúrguer da história da galáxia, também conhecido como McDuplo. Era simples, sim (duas carnes, duas fatias de queijo, picles e molho... de ketchup, acho), mas custava R$ 3,50! Hoje em dia, tudo o que você consegue é metade disso pelo dobro do preço: o Quarterão, que é nada mais que um McDuplo com uma só carne que custa doloridos R$ 7,00. Deveria se chamar Mc... Mono. Ou McUno. E vir com um baralho de cartas coloridas junto.

(ENTENDERAM? HAHA.)







É, péssima.

Enfim, as crianças de hoje em dia que cresceram vendo Disney XD não sabem, mas houve uma época em que os sanduiches do McDonald's faziam jus ao nome: o Big Mac era big, e o McLanche era realmente feliz. Não sei o que aconteceu de lá pra cá, provavelmente a carne de minhoca anda muito valorizada esses dias, mas agora o que você tem é um Big Mac com duas carnes tão finas que, juntando, daria uma só, e um McLanche em que você gasta 20 reais por meio hamburguer, seis batatinhas e um bonequinho do desenho animado em cartaz. Feliz mesmo só a) o seu filho, que não tá pagando nada; e b) o Papa-Burguer, que vai seguir vocês até em casa à noite e pegar o seu filho pra transformar em carne pra Big Mac.

Mas bem. Na época em que eu morava perto do McDonald's, o McLanche estava com uma dessas promoções com dois tipos de brinde, um pra meninos e outro pra meninas. No caso, Transformers para os meninos, bonecas Moranguinho para as meninas e Transformers que viravam fusquinhas cor-de-rosa com cheirinho de morango para os indecisos (mentira, mas porra, imaginem). Uma forma terrível de segregação sexual, eu diria. Pior do que isso só se houvessem brindes diferenciados para crianças brancas e negras (uma carteira ou uma pistola). Vêem? Terrível.

Minha mãe é apaixonada pela cabeçuda da Moranguinho. Mas POR FAVOR, não vão imaginar algo tipo:


“Por quê? Porque era o desenho da minha infância”, ela acabou de me responder aqui (e se este blog fosse um filme ou uma série, aqui caberia um flashback com a imagem em tons de sépia da minha mãe ainda criança sentada em frente à TV assistindo desenho). Então, assim que viu o comercial anunciando a promoção na TV (isso já nos dias atuais, como a legenda escrito "PRESENT DAYS" na parte debaixo da tela sugeriria), chegou pra mim e propôs um acordo: ela me daria dinheiro para ir comprar um McLanche, eu ficaria com o hambúrguer, ela com a boneca. Claro, aceitei a quest. "É perigoso ir por esse caminho", ela disse. "Pegue isto" e me entregou... o dinheiro.

Tudo bem, lá vou eu.

A estrada em frente fui seguindo, deixando a porta onde começara. Cheguei em meu destino, enfrentei bravamente a fila e, com a coragem de mil homens, fiz o pedido. Aí o cara do balcão:

- Qual robô?
- Não, moço... não quero robô, não... - eu disse, sussurrando. - Quero a Moranguinho.
- Quê?
- A Moranguinho...

Então ocorreu um daqueles momentos-chave em que você tem a certeza de que o Universo de alguma forma te odeia. Quando, por um terrível acaso, aquela fração de segundo em que as pessoas de um lugar (ou grande parte) resolvem fazer silêncio ao mesmo tempo pra retomar o ar coincide com o exato momento em que você fala um pouquinho mais alto algo que não deveria. É, o Universo é uma vadia.

Putz. "Que mico", foi tudo em que conseguia pensar na hora enquanto procurava um lugar onde pudesse me enterrar.

- Pô, é pra minha mãe!
- Que nada! Confessa que é pra ti! - disse o cara, provavelmente achando que eu era tão gay quanto Felipe Dylon.

"Desse tamanho e desse jeito já..." ouvi algum infeliz comentar atrás de mim. Tive alguns pensamentos homicidas, entre dois asteriscos.


A maldita (um charme nessa roupa de bailarina, porém).

Cheguei em casa boladão, sentei na cadeira em frente ao computador, e foi aí que eu... eu... eu...

... CRIEI UM BLOG. E fiz um post sobre isso, ainda boladasso.

"Acho que nunca mais volto lá. Fala sério...", eu pensei na época. Na outra semana, lá estava eu de novo. Afinal, é difícil resistir à tentação de comprar um Big Mac ("hmmm...", eu dizia).

E hoje esse mesmo blog está completando, entre idas e vindas, inacreditáveis 6 anos. Apesar de todas as vezes em que eu pensei em desistir, apesar de todas as vezes em que eu, de fato, desisti. Apesar de todas as mudanças de endereço e imagens quebradas nos posts mais antigos. E, acima de tudo, apesar das intermináveis Flood Wars. Quem diria. Queria agradecer sinceramente o apoio de todo mundo que, após tantos anos, continua firme e forte com o blog desde o seu início (SIM, existem pessoas assim, eu também não acreditava!), agüentando não só os séculos que se passam entre um post novo e outro, mas também os posts em si. E o pior de tudo: GOSTANDO.

E pra comemorar comemorar esta data histórica, vamos nos unir todos, leitores e Flooders From Hell, homens, mulheres (e Quilua), e cantar juntos o inesquecível Hino do Que Diabos?.

Hino do Que Diabos?
por Raphael Azevedo

Onde há esperança há meu balão verde
Estaremos sempre aos nabos
Que diabos.


- Argh. Desprezível.

Estou chorando. Parabéns ao KD e, principalmente, a vocês (porque, né).

Segunda-feira, Setembro 05, 2011

Assum preto


Começa comigo pegando carona com a Liz, a caminho da Feira do Livro.

A Feira do Livro é... bem, é um evento com um nome meio que auto-explicativo. São aqueles dias do ano em que todos aparentemente viram leitores ávidos, amantes da literatura, o que na verdade é só uma desculpa pros estudantes do ensino médio matarem aula e irem pra feira comprar... mangá.

Existem basicamente dois grandes grupos de pessoas que você encontra em uma Feira do Livro: primeiro, os estudantes de escolas públicas em excursão, o que seria até bonito, levar conhecimento à população mais carente e blablablá, se eles realmente estivessem mais interessados em livros do que em colocar funk pra tocar alto no Samsung pré-pago enquanto começam uma briga de gangues de escolas rivais e esfaqueam uns aos outros ali. Ou talvez isso seja só aqui.

Segundo, os otakus. SIM, OTAKUS. Aparentemente, ao ouvir a palavra "evento", o cérebro de um otaku já faz automaticamente a associação com "AnimeFriends" (e consequentemente com "cosplay"), então já é meio que coisa comum ver gente vestida de Naruto andando em um evento celebrando os 100 anos da imigração chilena para o Brasil. Ou, de novo, talvez isso seja só aqui.

Enfim, como eu ia dizendo, começa comigo pegando carona com a Liz, a caminho disso aí, quando...

Não, começa comigo ainda criança, na casa dos meus avós.

Morei com meus avós, uma tia e duas primas durante toda a primeira parte da minha vida. Pra mim, desde aquele momento da vida em que a gente consegue finalmente armazenar memórias, eu sempre morei na casa dos meus avós, e minha mãe com o namorado dela (que acabou sendo meu padrasto até hoje, vale comentar). Nunca conheci meu pai - não o biológico -, então o título de pai teve de ser passado para a figura paterna mais próxima (pelo menos era assim na minha cabeça de criança), e essa figura era, obviamente, o meu avô. Mesma coisa aconteceu com a minha avó, mas eu não podia deixar de chamar minha mãe biológica de "mãe" (afinal, ela estava um pouco mais distante, mas ainda estava ali). Então eu sempre tive duas mães e um pai.

(Era pra isso ter soado bonito mas soou como se eu fosse filho de um relacionamento à três de filme francês, ESQUEÇAM ESSA PARTE.)

Meu avô era o centro não só de uma família, mas de duas: tinha a primeira esposa e os filhos, e a segunda - minha avó - e mais filhos. Ainda havia os filhos dos filhos, e todos morando em casas ao redor ou apenas algumas ruas distantes da nossa. É tanta gente no clã Guedes que em 18 anos eu sinto que ainda não sei os nomes de metade deles. É mais ou menos a mesma sensação que dá quando você vê um episódio de Game of Thrones.

Minhas memórias dessa época são nebulosas, assim como todas as minhas memórias de um modo geral, então é realmente uma pena não conseguir lembrar traços da personalidade dele quando ele ainda estava sadio, até porque eu não tinha idade nem pra saber o que "traços de personalidade" queria dizer. Bom, eu lembro de uma piada racista e sexista que ele fez quando eu tinha uns 10 anos, mas que é totalmente impublicável aqui. CARA, ERA IMPUBLICÁVEL PRA MIM NAQUELA IDADE.

Se bem que, hmmm, não. Não precisa começar há tanto tempo assim.

Começa com meu avô perdendo muito sangue e sendo levado às pressas pro hospital.

Meu avô já estava debilitado há anos. Catarata, glaucoma, diabetes e várias outras complicações que faziam com que ele estivesse deitado ora na cama do quarto, ora na cama do hospital. E isso se arrastava já fazia tempo. Há alguns anos ele já não enxergava quase nada, e tinha que reconhecer os filhos pela voz. Nos últimos meses, nem isso mais. Acontece essa triste inversão de papéis com a gente quando nós ficamos velhinhos, quando os filhos se tornam os pais, e os pais se tornam os filhos.

Com espaços de tempos cada vez menores, ele voltava para o hospital. Dessa vez ele precisava de sangue. Todos os filhos e netos, todos nós fomos doar sangue. Não era o bastante, muitos acabaram não sendo aceitos como doadores (eu incluso), então tivemos que ligar pros amigos mais próximos e até alguns nem tanto. Nessas horas você percebe que o quanto seus amigos também são família. Conseguimos a quantidade de sangue que ele precisava, mas ele continuava a perder mais ainda. Teve de ser entubado e ficou assim até o dia seguinte.

Não. Muito dramático. Começa mesmo comigo morando na casa dos meus avós: minha mãe Graça e meu pai Guedes.

Eu lembro que ele fazia aquela mágica de tirar o dedo de uma mão usando a outra. Fato engraçado é que: ELE NÃO TINHA MESMO UM DEDO. A versão mais famosa do motivo relata um incidente de muitos anos atrás envolvendo um moedor de cana e um polegar voando pela casa e caindo no mingau que estava sendo preparado no fogão, mas esse é um fato que nunca foi confirmado. A verdade é que, depois de tantas versões, a história real provavelmente já se perdeu há muito tempo. Assim como o dedo.

Lembro dos Natais na casa deles, que na época sempre enchiam a casa. Quando a maioria dos netos ainda era criança e podia correr pela casa sem parecer um monte de retardados, e a atração da festa era mesmo esperar até meia-noite, quando o meu avô finalmente abria a porta do quarto e dava brinquedos pra cada um. E quando já estávamos velhos demais pra carrinhos e videogames e kits de mágica, ele começou a dar dinheiros mesmo.


Natal de 2004.

A gente sempre acha que as coisas na nossa infância são maiores e melhores do que são hoje em dia, mas nesse caso eram mesmo. Os anos iam embora e, aos poucos, a saúde dele também. Depois de 2003, eu já nem morava mais com eles. As crianças agora já não enchiam a casa como antigamente, e com as brigas frequentes entre os dois lados da família, cada vez menos gente aparecia nos Natais lá em casa - ou então aparecia só para tomar a bença e ir embora. Ah, e era sempre bença, não a bênção.

Meu pai gostava de cantar, característica que ele passou pra praticamente todos os filhos (bom, os netos não tiveram tanta sorte, como eu posso provar), e ele cantou pra cada um deles quando eram crianças. Lembro de todas as músicas que ele costumava cantar pra mim (o repertório não era exatamente vasto), e fico feliz dessa parte da minha memória não ser nem um pouco nebulosa. No último Natal, minha mãe teve essa ideia de levar um amplificador, conectar um microfone e, com a nossa parte da família reunida, dar para ele cantar. Olhando nos olhos dele dava pra ver que ele não tinha ideia de onde estava (na sala da mesma casa em que morava há mais de 10 anos), mas só de ouvir dava pra ver que ele sabia exatamente o que estava fazendo - e para quem.

Termina comigo pegando carona com a Liz, a caminho da Feira do Livro, quando o celular toca. Eu olho pra tela, é a minha mãe. Eu já até sei o que é. Atendo.

"Oi, mãe. Aconteceu alguma coisa? Eu tô indo com a Liz pra Feira do Livro e... não, eu tô de carona mesmo. Mãe... alô, mãe? Fala, aconteceu alguma coisa? (...) Tá. Tá, eu tô indo praí. Vou chegar o mais rápido possível. Te amo, tá?"

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Welcome to the machine


Quando você entra em uma universidade federal, uma palavra passa a ser frequente no seu dia a dia: greve. Você sai pra parada de ônibus, mas ei, não há ônibus, porque os motoristas estão em greve. Então você consegue um carro ou uma carona, mas quando chega na sala de aula não tem aula, por causa da greve dos professores. Aí antes de voltar pra casa, você resolve passar na cantina pra comer alguma coisa, mas não pode, porque você descobre que agora também tem greve dos vendedores de completo (salgado enrolado de salsicha + suco de maracujá) a R$ 1.

As situações descritas neste post são claramente devido a frustrações pessoais do autor, como vocês já devem ter reparado.

A coisa fica pior ainda quando você tem que tirar um documento. Digamos que você precisa tirar o documento X, mas pra tirar o documento X você precisa de uma declaração de que estuda na universidade. Quando você se matriculou, te deram um comprovante de matrícula, o qual, como o nome já diz, COMPROVA a sua matrícula. Mas aparentemente pra testar a sua força de vontade ou sei lá, alguém decidiu que seria muito mais engraçado se você levasse não um comprovante, mas uma DECLARAÇÃO, que é basicamente um bilhete do reitor dizendo que você estuda mesmo lá.

Pra tirar uma declaração você precisa ir no órgão responsável por emiti-la, mas olha só que surpresa, eles estão em greve e agora só atendem das 10h ao meio-dia. Então você tem que sair correndo do meio de uma de suas aulas pra chegar à tempo lá antes que fechem, mas como fica do outro lado do campus, você consegue chegar a tempo apenas de ver eles fechando as portas – e como elas são de vidro, você ainda consegue ver o pessoal lá dentro conversando e virando copinhos plásticos de cafezinho e pingando limão na boca em seguida.

No dia seguinte você chega faltando alguns minutos pra fechar, mas vê que eles já estão encerrando mesmo assim.

– Ei, você não pode fechar, ainda faltam... – olha pro pulso que não tem nada. – 2 minutos!
– Eu sei, mas nós estamos de greve e estamos muito revoltados.
– Mas eu preciso mesmo tirar esse documento, não tem como me atender rapidinho?
– Não, porque até terminar de atende-lo já terá passado do nosso horário de funcionamento.
– Mas vocês estão fechando ANTES do horário de funcionamento!
– Não estamos não.
– Estão sim! Ainda falta 2 minutos!
– Não falta não.
– Falta sim.
– Não falta não.
– Falta sim!
– Falta não.
– FALTA SIM!
– ... bom, AGORA não falta mais. Boa tarde.

E fecha a porta.

No dia seguinte você consegue chegar bem na hora em que eles estavam abrindo apenas pra mulher com voz de tédio dizer que você precisava estar com os documentos Y e Z em mãos e que infelizmente ela não pode fazer nada. Você pergunta quem diabos anda com os documentos Y e Z em mãos, ela responde “quem NÃO anda com os documentos Y e Z em mãos?”, logo em seguida fecha a cortina da janelinha de vidro pela qual vocês estavam se comunicando e você pode ouvir Bon Jovi começando a tocar do outro lado.

No dia seguinte você se prepara com todos os documentos possíveis que tirou ao longo de sua vida pra não haver erro dessa vez... só que aí já é sábado, e agora só segunda-feira.

NA SEGUNDA-FEIRA você chega lá e mostra todos seus documentos pra finalmente conseguir tirar... um requerimento, o que, obviamente, ainda não é a declaração. Essa mesmo só vai vir após um “prazo indefinido”, afinal, eles estão em greve e têm coisas muito mais importantes pra se preocupar do que em fazer o próprio trabalho.

Ao fim do curso, você percebe que passou mais tempo desses últimos 5 anos correndo de um lado pra outro resolvendo problemas do que de fato dentro de uma sala de aula. Mas, pensando bem, não é assim que vai ser a vida daqui pra frente?